Com modelo de clube-empresa ameaçado, Figueirense teme novo W.O. na Série B

O Conselho Deliberativo do clube deu um ultimato para a empresa Elephant, holding que comanda o clube

por Agência Estado

Florianópolis, SC, 22 - O modelo de clube-empresa pode estar com os dias contados no Figueirense. A derrota por W.O. para o Cuiabá, na terça-feira, pela Série B do Campeonato Brasileiro, aprofundou uma crise que já vem se arrastando há meses em Florianópolis.

Alegando constantes atrasos de salários e o não recebimento de outras verbas contratuais, os jogadores da equipe não entraram em campo, tomando atitude drástica que se for repetida poderá rebaixar o time para a Série C.


ULTIMATO DO CONSELHO
O Conselho Deliberativo do clube deu um ultimato para a empresa Elephant, holding que comanda o Figueirense. Caso ela não resolva as pendências financeiras até o dia 28 deste mês, a parceria será encerrada unilateralmente, conforme reza o contrato. O Estado procurou os dirigentes da Elephant nesta quarta, mas a empresa não quis se manifestar.

No próximo sábado, o Figueirense tem jogo contra o CRB, às 19h, no estádio Orlando Scarpelli, em Florianópolis. Um novo W.O. exclui o time da competição, conforme prevê o Código de Justiça Desportiva. Há ainda uma possível multa entre R$ 100 e R$ 100 mil. O contrato com a Elephant foi assinado em 2017 com gestão por 20 anos.

DIA DE REUNIÕES
Esta quarta foi um dia de reuniões no Figueirense. Os encontros foram entre representantes da empresa e os atletas, na tentativa de se chegar a um entendimento e garantir os próximos compromissos do time. Os membros do Conselhos Deliberativo, Fiscal e de Administração do clube passaram o dia discutindo o futuro da gestão.

Figueirense está em crise na Série B - Matheus Dias/FFC
Figueirense está em crise na Série B

MEDO DE REPRESÁLIAS
Os jogadores que teriam "liderado" o movimento de paralisação temem represálias e uma lista com oito contratações circulou durante o dia. Segundo alguns atletas, que pediram para não ser identificados, além de salários, o Figueirense não tem honrado pagamentos de outros contratos, como direitos de imagem.

Em alguns casos, o FGTS está há mais de sete meses sem ser recolhido. A situação teria iniciado em 2017, quando a empresa assumiu o clube, e tem se agravado desde então.

PROBLEMA POLÍTICO ?
O presidente do Conselho Deliberativo, Francisco de Assis, diz que o movimento de aspecto político para derrubar o presidente e acabar com a parceria. Só esqueceu de dizer que a parceria não funciona há muito tempo. O clube já teria, inclusive, antecipado receitas junto à CBF e à federação Catarinense de Futebol.

Francisco de Assis defende presidente que não paga salários
Francisco de Assis defende presidente que não paga salários

"Havia um acordo entre as partes que previa um pagamento para o dia 27 de agosto. Mas os jogadores radicalizaram" - garantiu Assis.

TORCIDA APLAUDE JOGADORES
Ao desembarcarem em Florianópolis, no fim da manhã desta quarta, os jogadores foram recebidos com aplausos por um grupo de 50 torcedores. O capitão Zé Antônio concedeu entrevista, rodeado por atletas da equipe, e alfinetou a gestão.

"Atrasar o salário de qualquer trabalhador não é normal. Esperamos que a nossa atitude (de não jogar) possa dar início a novo ciclo", disse.

"Nós não temos nada a esconder de ninguém, e tudo que vocês quiserem saber da minha parte, e da parte de qualquer um aqui, é um livro aberto, agora já não sei se isso pode ser dito da mesma forma por quem está do outro lado", disparou.

Atualmente, o Figueirense tem dívida de R$ 100 milhões. Em 2017, quando a Elephant assumiu o controle do clube, incorporando também a dívida, o valor passivo era de R$ 77 milhões. Além dos atrasos de pagamento no futebol, jogadores alegam que profissionais das áreas administrativas do clube enfrentam os mesmos problemas.

RENÚNCIA EXIGIDA

Claudio Honingam seria apenas membro do grupo Elephant
Claudio Honingam seria apenas membro do grupo Elephant


O presidente do clube, Claudio Honigman, também é sócio da Elephant. Ele é conhecido nos bastidores por causa de suas relações com Ricardo Teixeira, ex-presidente da CBF.

Em 2017, Honigman foi apresentado como investidor no negócio que passaria o controle do clube para a S/A.

E foi só no fim de 2018 que ele assumiu a presidência do Figueirense com a promessa de implantação de "planejamento de longo prazo" que solucionaria a situação financeira assumida pela empresa, fazendo investimentos necessários para manter o time competitivo.

PARCEIROS SOB SUSPEITA
Além da relação com Ricardo Teixeira, o dirigente também manteve sociedades por meio de suas empresas com Sandro Rosell, o ex-presidente do Barcelona que chegou a ser preso por lavagem de dinheiro, e com a mulher de Teixeira na W Trade Brasil e na Brasil 100% Marketing, ambas apontadas em negociações ilícitas entre Rosell e o ex-dirigente da CBF.

Momentos antes da partida na Arena Pantanal, na terça, os jogadores receberam comunicado da Elephant de que os pagamentos dos atrasados seriam regularizados, parte ontem e o restante até dia 28, conforme prevê acordo firmado entre a Associação Figueirense e a empresa.

Sandro Rosell: banido pelo Barcelona
Sandro Rosell: banido pelo Barcelona

Os atletas, porém, exigiram mais e pediram que Claudio Honigman renunciasse caso o acordo não fosse cumprido. O cartola não aceitou o termo e os atletas não tiveram os salários depositados.

PRÓXIMO JOGO
Uma das preocupações da torcida, e do clube, é saber se os jogadores vão entrar em campo sábado, no Orlando Scarpelli, contra o CRB. Segundo informações dos conselheiros, a Elephant estaria tentando um acordo com os atletas para que eles joguem - um segundo W.O. resultaria em exclusão da equipe do torneio.

Há a expectativa de formação de novo elenco, que só deve ser anunciado depois das negociações. Isso envolveria cinco jogadores do Athletico-PR e três que estão liberados de seus clubes.

NOVO WO DÁ ELIMINAÇÃO E QUEDA
Segundo Higor Marcelo Maffei Bellini, advogado mestrando em Direito Desportivo pela PUC-SP, o artigo 203 do Código Brasileiro de Justiça Desportiva (CBDJ) prevê que em caso de reincidência

específica o time poderá ser excluído do campeonato nacional.

O especialista em Direito lembra ainda que, caso ocorra a exclusão do Figueirense do Campeonato Brasileiro da Série B, a tabela da competição será alterada.

"Caso o clube seja excluído, todas as outras equipes serão consideradas vencedoras pelo mesmo placar, de 3 a 0. Isso é feito para preservar a competitividade do torneio", explica.

COMUNICAÇÃO POR ESCRITO
Bellini afirma que os jogadores poderiam comunicar por escrito para a direção do clube que não pretendem entrar em campo.

"O ideal seria que falassem com o sindicato para pedir um dissídio de greve. Os jogadores têm direito a isso, pois o artigo 32 da Lei Pelé fala que é lícito ao atleta se recusar a competir se os salários estiverem atrasados em dois ou mais meses."

Para ele, se comunicado antes, o clube pode até tentar adiar sua partida.